O olhar mais do que qualquer outro sentido é dado ao condicionamento, à amortização, ao adormecimento. O olfato, o paladar, o tato e a audição,estes outros sentidos rapidamente nos alertam de algo não vai bem. Eles são sempre mais atentos!
O entorpecimento do olhar acaba por mecanizar o ser humano.Mas, como o olhar é condicionado? Como descondicioná-lo. E mais: como formarum novo olhar? E para que?
Embrutecimento
A velocidade do mundo contemporâneo, o cotidiano duro e a sua repetição, oexcesso de informações e a necessidade de respostas rápidas que a vidaexige, acabam criando condionamentos físicos e psiquicos. Gestos que fazemosrepetidas vezes e não nos damos conta. A paisagem do caminho que deixamosde perceber por parecer familiar, por acharmos que já vimos tudo.
Quantas vezes caminhamos sem perceber o ³em torno². Quantas vezes seguimospor um caminho por costume, quando na verdade desejámos ensaiar outro.Quantas vezes temos dificuldade de lembrar de algo que acabamos mesmo defazer! Por tê-lo feito sem prestar atenção, gesto mecanizado! Mas, comoperceber o inusitado do gesto cotidiano, as novidades no já conhecido!?
O primeiro passo é voltar a atenção para o momento presente, percebendo oque estamos fazendo agora, não antes, nem depois!Quantas vezes voce sai de casa e depois fica em dúvida se fechou a porta?!Lembra-se de quantas voltas deu na chave ao virá-la na fechadura!?
Estranhamento
A redescoberta do olhar inteiro, do olhar que olha e vê, é desenvolvidapela criação de um estranhamento para com as coisas que se olha, todas elas!Olhar para tudo como se tudo fosse uma eterna novidade. Olhar como oextrageiro olha para o mundo que lhe cerca: repleto de novidades. É precisoolhar para o mundo como se estivéssemos olhando para tudo pela primeira vez.Olhar extrangeiro, olhar turista, jamais!
A construção do olhar
Uma das questões que cercam a educação do olhar é exatamente como é queeducamos esse olhar? Mas, o que é educar o olhar?
Para conseguirmos respostas talvez devessemos voltar atraz, e pensar sobreas questões que levam a esse embrutecimento, procurar entender como é feitaa construção desse olhar, como é estruturada esta percepção do mundo, oucomo é que deixamos de percebê-lo? De que maneira o olhar é ³condicionado² aser o que é e quando deixa de sê-lo? Como o sentido do olhar é desenvolvidoe em que momento ele se tranforma nessa ²janela da alma²?
Intervenção X formação
O caminho para o descondicionamento do olhar passa pela redescoberta doprazer. Do prazer de estar vivo, do prazer de olhar o mundo e poder perceberque ele (o mundo) se renova a cada momento, o prazer descobrir que o mundo ésempre muito maior do que imaginamos, e que a vida é mais ampla do que o quevemos em torno do nosso umbigo.
A imagem à serviço das comunidades
A invisibilidade é o principal problema para a transformação de qualquersituação. Quando não vemos uma coisa, não é possivel estabelecer nenhumareflexão sobre ela! Quando não vemos os problemas eles não existem!
Ver significa poder transformar, ter uma atitude sobre o que se vê, se este³estar olhando não é uma atitude passiva, se não existe o pré-conceito, seesse olhar é um olhar que procura captar a
mensagem do que se está venho:olhar e ver!A transformação da sociedade passa pela compreensão de quem somos e aondeestamos. Mas se não nos vemos, se não nos percebemos- quem somos ou aonde estamos - como mudar algo?
A construção do olhar como construção da cidadania
As comunidades, grupos populares e minorias do país sempre se sentiramexcluidos da grande mídia, que sempre foi controlada por poderosos gruposeconômicos, industriais e oligarquias tradiconais.
A comunicação no Brasil sempre foi tratada como patrimônimo feudal, quemcontrola a informação controla a nação.
Com a abertura democrática foi possivel o surgimento de um segmento deinformação chamado de imprensa alternativa que começou a funcionar dentro deum circuito que criou condições para existência de uma verdadeira³comunicação popular.
Mas, se por um lado este circuito popular de comunicação vem se ampliando ecriando um espaço onde cada vez mais esses grupos comunitários(populares)tem meios de expressão de sua cidadania, por outro lado mais os mass-mediasão cada vez mais controlados por grupos econômicos transnacionais,consolidando uma globalização que serve apenas aos interesses desses gruposinternacionais e não mais aos países(nações) aonde eles operam.
Por outro lado, a existência de projetos de oficinas de vídeo, cinema e tvjunto às comunidades de favela e da periferia, oferecem meios para que essespróprios grupos populares possam criar a sua linguagem e informação, uma vezque para se fazer vídeo, cinema ou fotografia é preciso apontar a camera emalguma direção, olhar e enquadra! E o que essas cameras enquadram, o quevêem é a própria realidade social dessas comunidades onde os usuários dessesequipamentos estão inseridos.
A produção de televisão, rádio e imprensa pelos grupos populares representamuma possibilidade de expressão onde o povo tem vez e voz!
O Vídeo como instrumento transformador
A existência de projetos culturais que trabalham a construção do olharfomentando a possibilidade de se descobrir a si mesmo e a comunidade onde seestá inserido, e representa o início de transformação de toda uma realidadesocial e audiovisual.
O vídeo (cinema, audiovisual, etc.) é, neste momento, instrumento deconhecimento, de descondicionamento do olhar. Justamente porque ele registrao que está ali, e nos mostra situações das quais muitas vezes não nos damosconta! E esse registro , então produzido, serve como elemento de reflexãoe discussão, abordando temas tão próximos que, de outra forma, talvez nem nos déssemos conta e estes passariam despercebidos aos nossos olhoscondicionados pelo olhar cotidiano.
Utilizando a imagem (e a auto-imagem) como elemento no processo deconscientização e desenvolvimento sócio-cultural, os indivíduos se vêem eexergam a realidade cotidiana onde estão iseridos, aonde vivem e existem!Olham para si mesmos de uma forma transformadora. E, nesse momento, estáentão estabelecido o primeiro passo para um concreto descobrimento comunitário, e da sociedade por extenção!
Por isso não basta apenas que a TV comercial se aproprie da linguagem e da temática embrionada nesse circuito alternativo de comunicação popular, numa espécie de antropofagia caraterística do sistema que se apropria do alternativo para lhe dar um rótulo de situação e com isso lançar moda eestabelecer uma nova propriedade, transformado o marginal em objeto demercado e faturando alto em prol da manutenção de seu próprio status quo.É preciso que a transformação que se faça na mídia oficial seja aquela queincorpora a participação da sociedade na gestão desses meios de comunicaçãode massa como uma forma legitima de cidadania, onde a exibição dessasvariadas caras (e produções existentes) seja a expressão da pluralidade dasociedade, e, também, uma forma de mostrar que a imagem do país não é apenasa das elites, mas que existe vida inteligente fora dessa janela, que é a TVcomo conhecemos, aquela que é exibida nesse momento em nossas casas. A TVque olhamos não olha para nós!
Nas favelas e periferias já existe uma produção de imagens comprometida comtemas e ações ligadas à construção da cidadania plena para esses grupospopulares. Debate que esse circuito alternativo de comunicação faz ecoar portodos os cantos do país.Se a comunicação popular não agrada aos donos do poder, ela é a legítima voz dos excluídos. E, se essa produção de vídeo comunitário, que é uma expressãodos ideais e anseios desses grupos populares em particular, não chega(ainda) na TV oficial para ser vista pela grande maioria da sociedadebrasileira, ela já pode ser sentida nas urnas.
Em breve, com as mudanças necessárias para a implantação da TV DIGITAL nopaís, serão necessários ajustes nas concessões de rádio e TV, já que astransmissões não serão mais analógicas e sim digitais, o que faz com que TODOS os contratos de TODAS as emissoras deverão ser revistos. E, então,nesse momento a sociedade organizada, em todos os seus setores, deverá semobilizar para que as IMAGENS que são exibidas pelas redes de televisão dopaís possam, enfim, refletir as verdadeiras imagens que já podem ser vistaspelos novos olhares reconstruidos e desenvolvidos pela democraização dacomunicação que se faz, em silêncio e com eficiência, em todo o país.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário